quarta-feira, novembro 15

LUGARES

um assobio longínquo
Cheguei a Lisboa, na manhã envolta de nevoeiro. Um manto espesso paira sobre a cidade como um lamento sem sinal de abertura para um céu de resto azul celestial. O domínio desse cinzento cobre toda a velha Lisboa, e sobe pelas avenidas, galopeia até tingir toda a malha urbana, às construções mais recentes, mais altas. No 8º andar, a bebericar um café de máquina mal tirado vislumbro apenas esse imenso manto, mal reconheço as árvores no jardim do Campo Grande, apenas uma massa esverdeada que como turva se esconde por trás do vidro lá ao longe. O frio que assola os lisboetas nesta manhã mais lembra um passagem de uma Londres vitoriana e há quem fale no dilúvio que se aproxima e promete cair sobre a cidade.
Mas o meu fascínio vai para as horas da noite. Não só o nevoeiro durante o dia se manteve quase inalterado como com o cair da noite voltou a ganhar todo o seu fôlego vespertino. Foi com uma surpresa imensa que ao entreabrir a janela da sala e procurar no escuro da paisagem o pouco de rio que se vê da minha casa que ouvi o assobio, o toque de mistério, o alerta como um repuxo fantástico de uma baleia. Os cacilheiros apitavam entre as nuvens espessas de frio que sobrevoavam o rio. Um espectáculo deveras interessante e surpreendente. Nem me lembro da última vez que ouvi as embarcações a apitar em cada travessia, esse assobio que nos remete para um tempo já longínquo. Senti-me queirosiano, e depois uma leve mágoa de este não ser já um ritual habitual nas margens do Tejo.