segunda-feira, outubro 23

FICÇÃO


história do taxista [1]
Fotografia de Pedro Silva

Há sempre uma história com um taxista. Quando se visita uma cidade de verdade fica sempre um diálogo curioso, uma breve aventura ensaiada em três esquinas, uma visão nevrálgica a meio da noite ou o mero repuxo da consciência de uma juventude longínqua.

Assim também eu tenho não apenas uma história estranha e esburacada com um taxista, como tenho uma história recente. Numa Sexta-feira , meio de Outubro envolto num clima meio estranho, tinha chovido a cântaros na noite vespertina mas o dia tinha sido ameno quase primaveril. À saída de um jantar que dividi com B. tínhamos decidido apanhar um táxi. O metro já partira, descemos a calçada do Duque até às traseiras da obra da estação manuelina e passando a Rua 1º de Dezembro desaguamos em pleno Rossio. Meu deus o primeiro andar por baixo do arco do MUSEU TATÉ WIKIKUWA, recentemente inaugurada pela galeria Zé dos Bois, mas isso são outros contos, já estava em festa. Parece até ridículo de mais mas numa praça tão digna e bela apenas uma janela está em festa, mas pelo menos, está mesmo em delírio. As restantes, ora isso deve-se a um infinito número de imensos pequenos nadas que no seu conjunto formam uma complexa teia inteligível pela sua natureza socio-económica impossibilitando ao Praça de Dom Pedro IV uma verdadeira vida em pleno vigor e oferecendo-lhe em contrapartida a mais lenta e terrível tortura, o abandono negligenciado conscientemente.
Os pensamentos enrolavam-se olhando ao alto da varanda do primeiro andar, cheia, cheia de pessoas, de vida e fogosidade. Lisboa tem estes nichos, estas oportunidades que uns poucos corajosos exploram oferecendo um conteúdo, por vezes fácil e gratuito onde não existe nada. Antes de baixar a cabeça e entrar no carro olho uma vez mais, agora também para as janelas adjacentes em festa. O carro contorna a praça, seguimos pela artéria que alimenta a cidade. Apanho a conversa já a meio ou agora o imagino assim. O taxista explica o vazio da baixa, mais um penso eu. Do nome não me lembro mas a teoria conspirativa retenho claramente passados estes dias. À velocidade de cruzeiro o condutor impôs o ritmo de viagem pela história que queria contar. Mediu num olhar o caminho e contou. No entusiasmo todos perdemos o fôlego e a capacidade de concentração vai se dizimando, e assim também o revoltado taxista se perdeu, não no caminho mas na sequência dos acontecimentos da teia conspirativa. Perdera-se e agora que saíamos do carro tentava em desespero colar fragmentos e jogar novas cartas no tabuleiro da nossa curiosidade que se esvoaçara no início da avenida. Abandonar aquela viatura, de cheiro triste e gasto, um estado de espírito, toda uma existência onde a raiva pode sempre mais que a vontade. B estava revoltado com o personagem, eu nem sei bem, mais enjoado pela sua natureza que outra coisa qualquer.
A teoria? Bem, já me esquecia de contar. A baixa está às moscas porque, depois do 25 de Abril,…ai quando começam assim sei que vai doer. Nem vale a pena.


*Fotografia da autoria de Pedro Silva de http://www.pbase.com/pedrosilva/cowparade2006

domingo, outubro 22

LUGARES

Fotografias de Daniel José de Oliveira

Lisboa tem encanto!
É o que anda na boca do mundo; exclamação fruto de toda esta gente de um mundo inteiro que em viagens de três dias vem na busca de viver um tesouro, descobrir Lisboa.

Pois Lisboa não espera por ser descoberta, quanto muito desafia a ser encontrada. Uma cidade com um porto é sempre local de encontros e desencontros, por isso digo encontrar...
Havia encontrado um restaurante bem sui generis. Uma casa em pleno coração nobre da cidade. Falo do Carmo, do largo com o mesmo nome em pleno Chiado onde um dia uma igreja erguida pelo homem foi devastada pela natureza para daí em diante ser venerada como ruína gótica. Um local singular que permite uma vista sobre a parte velha da cidade, a mais velha já reconstruida um número de vezes sem conta. Mas acima de tudo, o verdadeiro ex-libris, gigante escondido deverá ser contemplado ao longe. Vários são os miradouros de Lisboa que permitem olhar com espectacularidade a catedral dramáticamente caída no que na época terá sido o maior desastre da memória.

O largo do Carmo alberga um número crescente de locais a visitar. Refiro-me à Leitaria Académica, casa de grande tradição para a população residente, uma população que foi no tempo erradicada para dar espaço a novos conceitos e novas gentes. Ao Carmo afluiem ruelas esconsas de gente humilde como a calçada do Duque mas também algumas das ruas mais ricas da cidade. A igreja e o estado que já foi totalitário também estão representados. Um quartel e três igrejas em redor atribuiem aos quarteirões uma ordem antiga e estabelecida.

O restaurante, tem um ambiente de cheiros riquíssimo, prova de que a intromissão da cozinha italiana nos cheiros e gostos da India são compatíveis. A ementa divide as opções que se reencontram mais tarde nos pedidos de mesa em mesa. Os homens de tes dourada e de feições delgadas que servem com simpatia e prontidão deixam dúvidas quanto à sua origem. Como, alimento o corpo são e a alma que vai ganhando tranquilidade neste início de noite de domingo mergulhada numa maré de odores puros e preciosos. Os camarões frescos dançam num marinado de pimentos aind estaladiços envoltos num molho delicioso onde o tomate e o azafrão se aliam à pimenta numa viagem degustativa.
Alimento-me e ao mesmo tempo
perfumo o meu estómago.

Excluo o café final, porque ao domingo acabo sempre por tomar o café antes da refeição, não são muitas as vezes que saio de casa mais cedo que a esta nobre hora em que o dia já vencido dá espaço a noites tranquilas.

O pior são as pulgas. Estava a bricar....
Pois Lisboa, é mesmo assim, numa esquina qualquer, atrás de uma porta escondida ou até escancarada podemos encontrar uma gente bem tímida mas brilhante.

Triologia de fotografias tristes


segunda-feira, outubro 2

LUGARES

Fotografia de Daniel José de Oliveira

lisboacaisdeaventura
Neste blog irá encontrar imagem e texto alusivos à cidade de Olisipo. Na herança dás águas do Tagus naceu uma urbe, cresceu um porto com os olhos fixos no horizonte longínquo. Lisboa, Cais de Aventura irá viver da paixão dos seus colaboradores, fixando o limite entre o mito e a realidade como cordão umbilical que liga esta cidade ao mundo.

Lisboa é cidade de viajantes, de pessoas que chegam dos mais variados locais e aqui iniciam um novo troço nas suas vidas, jogando os dados ao vento da boa sorte. São também os mais novos, em número cada vez mais alargado, na senda de outros aventureiros, são agora os estudantes de Erasmus que vêm beber das águas da sabedoria do Tejo. Água que alimentou e curou os cavalos de Ulisses, guerreiro da antiga Grécia que fugido da batalha aqui ergueu um abrigo o qual se desenvolveu em capital de um pais de tradições mundanas.

Curiosidade move os transeuntes, move a cidade na aproximação a uma Atlântida cada vez mais nebulosa.

Lisboa é em cada rua!