FICÇÃO
história do taxista [1]Fotografia de Pedro Silva
Há sempre uma história com um taxista. Quando se visita uma cidade de verdade fica sempre um diálogo curioso, uma breve aventura ensaiada em três esquinas, uma visão nevrálgica a meio da noite ou o mero repuxo da consciência de uma juventude longínqua.
Assim também eu tenho não apenas uma história estranha e esburacada com um taxista, como tenho uma história recente. Numa Sexta-feira , meio de Outubro envolto num clima meio estranho, tinha chovido a cântaros na noite vespertina mas o dia tinha sido ameno quase primaveril. À saída de um jantar que dividi com B. tínhamos decidido apanhar um táxi. O metro já partira, descemos a calçada do Duque até às traseiras da obra da estação manuelina e passando a Rua 1º de Dezembro desaguamos em pleno Rossio. Meu deus o primeiro andar por baixo do arco do MUSEU TATÉ WIKIKUWA, recentemente inaugurada pela galeria Zé dos Bois, mas isso são outros contos, já estava em festa. Parece até ridículo de mais mas numa praça tão digna e bela apenas uma janela está em festa, mas pelo menos, está mesmo em delírio. As restantes, ora isso deve-se a um infinito número de imensos pequenos nadas que no seu conjunto formam uma complexa teia inteligível pela sua natureza socio-económica impossibilitando ao Praça de Dom Pedro IV uma verdadeira vida em pleno vigor e oferecendo-lhe em contrapartida a mais lenta e terrível tortura, o abandono negligenciado conscientemente.
Os pensamentos enrolavam-se olhando ao alto da varanda do primeiro andar, cheia, cheia de pessoas, de vida e fogosidade. Lisboa tem estes nichos, estas oportunidades que uns poucos corajosos exploram oferecendo um conteúdo, por vezes fácil e gratuito onde não existe nada. Antes de baixar a cabeça e entrar no carro olho uma vez mais, agora também para as janelas adjacentes em festa. O carro contorna a praça, seguimos pela artéria que alimenta a cidade. Apanho a conversa já a meio ou agora o imagino assim. O taxista explica o vazio da baixa, mais um penso eu. Do nome não me lembro mas a teoria conspirativa retenho claramente passados estes dias. À velocidade de cruzeiro o condutor impôs o ritmo de viagem pela história que queria contar. Mediu num olhar o caminho e contou. No entusiasmo todos perdemos o fôlego e a capacidade de concentração vai se dizimando, e assim também o revoltado taxista se perdeu, não no caminho mas na sequência dos acontecimentos da teia conspirativa. Perdera-se e agora que saíamos do carro tentava em desespero colar fragmentos e jogar novas cartas no tabuleiro da nossa curiosidade que se esvoaçara no início da avenida. Abandonar aquela viatura, de cheiro triste e gasto, um estado de espírito, toda uma existência onde a raiva pode sempre mais que a vontade. B estava revoltado com o personagem, eu nem sei bem, mais enjoado pela sua natureza que outra coisa qualquer.
A teoria? Bem, já me esquecia de contar. A baixa está às moscas porque, depois do 25 de Abril,…ai quando começam assim sei que vai doer. Nem vale a pena.
*Fotografia da autoria de Pedro Silva de http://www.pbase.com/pedrosilva/cowparade2006




